Capítulo I
Consegui ficar em pé, embora ainda muito trêmula. Havia exagerado na dose dos remédios. Minhas mãos desajeitadas apoiaram-se no balcão da pia e derrubaram alguns frascos. O barulho dos vidros despedaçando-se no chão penetrou meus ouvidos com tamanha violência que tive de curvar meu corpo. Encarei o espelho: não, não era meu aquele rosto! Não era humano! Tal reflexo parecia mais um animal, uma presa acuada, um bicho aflito e sem esperanças, como se já se encontrasse estraçalhado na boca de um predador qualquer. Aquela imagem era o que havia restado do ser que eu fora um dia, os frangalhos da garota uma vez chamada Audrey.
O rosto retornava o olhar ora com medo, ora com desconfiança, ora com fúria, mas os traços de derrota eram perceptíveis a qualquer momento. Inclinei a cabeça pra um lado, para o outro, sorri, fiz caretas, cara de brava. A criatura do outro lado insistia em imitar cada movimento, o que me irritou profundamente. Seria muito mais fácil descobrir que estava vendo coisas que não existiam do que aceitar aquela imagem como sendo meu próprio reflexo. Lentamente aproximei os dedos do espelho e toquei a superfície por poucos segundos. Um calafrio percorreu cada parte do meu corpo: agora via a mim, o mesmo olhar indiferente de sempre, os mesmos lábios extremamente rubros, as mesmas mechas vermelhas e rebeldes de cabelo que caiam sobre meus olhos pretos, a mesma pele clara como leite, a mesma expressão de individualidade. Sim, meu rosto sempre tivera um ar egoísta e prepotente, porque não maldoso? Claro! Agora mais do que nunca podia perceber toda a malícia, o ódio, a perversão, tudo o que compunha a minha personalidade!
A visão durou por pouco tempo, logo deu lugar à criatura novamente. Por mais que eu não a reconhecesse, o olhar carregado de incerteza e antipatia era meu. Passei as mãos no cabelo, mas dessa vez o outro lado do espelho permaneceu imóvel. Apenas me observava com um certo ar de curiosidade. "O que você vai fazer agora, garota dos olhos negros e feição esnobe?". Não, soava mais como um desafio do que uma questão de saber por saber... O que eu vou fazer agora? Que pergunta mais idiota! Eu vou te expulsar daí!
- Daí aonde? Estamos aí.
- Não importa!
- Então fomos criadas por você, estamos com você. Não temos como ir embora.
O sorriso debochado fez com que eu me sentisse estranha.
E de repente percebi que eu mesma esboçava aquele sorriso.
- Viu? Não existe eu ou você. Somos uma coisa só!
- Não! Eu tô delirando! É o efeito do remédio, é só isso.
- Ora querida, nossos antidepressivos não adiantam de nada, não agora. Chegamos ao limite de tudo. Eles agora só colocam a gente mais nervosa... e descontrolada.
- Não, não, não, é tudo imaginação Audrey, se concentra...
- Imaginação?! Claro que sim, nós sabemos disso! Todos tão certos, estamos loucas de verdade! Não sabemos mais o que é o que, quem é quem, e porque isso tá acontecendo!
- Eu sei! Só preciso me controlar! Você não existe, não é real.
- Você somos nós. Nós somos você. Ou não nos achamos reais? Não estamos aqui, nesse banheiro, nesse exato momento?
- Não....
- Sim! Estamos aqui. Nós estamos aqui, olhe!
Mirei o espelho com medo. Agora estava refletida minha própria imagem ao lado da imagem da criatura. Ela acariciava meus cabelos com desdém. Deu-me um beijo no rosto. A visão me causou náuseas.
- NÃO!!!
Minha mão lançou-se contra o espelho quase que instintivamente. Não senti dor alguma, apenas observei a poesia dos estilhaços caindo sobre meu corpo. Nenhum deles parecia me ferir, ou ao menos se encostar a minha pele. Era como se eu fosse invisível e eles passassem por mim sem barreira alguma em direção ao chão. Em segundos que pareceram horas, o maldito espelho estava todo em pedaços sobre o azulejo branco do banheiro.
Ouvi gargalhadas e tive a horrível sensação de não saber de onde elas vinham.
O momento surreal passou quando comecei a sentir dores. Olhei lentamente cada parte de meu corpo arranhado pelos cacos, até chegar aos meus pés. Em volta deles havia se formado uma pequena poça vermelha, e o branco do chão já não era mais visível. Tentei sair dali, do pequeno círculo que parecia me aprisionar, mas a dor era insuportável. Fiquei arrepiada ao perceber que a intenção era justamente aquela: a dor não me permitiria sair, fugir do sangue, da loucura e da insensatez. Aos poucos o sentimento de derrota foi me tomando por inteiro, os pensamentos invadindo minha mente com tamanha força que já não conseguia raciocinar direito, fui me confundindo, rindo e chorando. O teto parecia se elevar e ficar longe, assim como as paredes, e eu me vi ali, presa na pequena poça de vermelho diante de um branco tão vasto, incapacitada de explorá-lo, de vivê-lo. Até que o ambiente foi ficando tão grande que eu não conseguia enxergá-lo, restava apenas a sensação de solidão e perigo.
E tudo foi indo embora: as cores, as distâncias, as confusões e delírios. Tudo voltou roxo, depois verde, depois colorido ao extremo, até que meu corpo tombou.
- Audrey....Audrey....
Antes de abrir os olhos pude me perceber sentada, e as mãos de alguém segurando meus braços com força.
Esse alguém era eu mesma.
A cena me causou tantas impressões ao mesmo tempo que não consegui reagir. Havia bondade nos olhos daquela outra criatura; uma bondade inocente, caridosa, a qual não havia nos meus. Era muito mais fácil e reconfortante acreditar ser ela mais parecida comigo, a Audrey real, do que a outra criatura, a cruel e impiedosa, a que me havia feito sangrar ao estraçalhar o espelho. Esta era carinhosa, mantinha as sobrancelhas inclinadas como sinal de piedade, não tinha os lábios tão rubros ou a expressão tão agressiva, não usava maquilagem pesada e tinha o cabelo bem preso para que não caísse em seu rosto. Era como uma visão, algo delicado, sutil, era uma bela pintura, uma leitura de despertar lágrimas.
Era eu. Havia de ser eu!
Começou a falar e sua voz soava doce como a voz de uma mãe.
- Audrey querida, fomos tão maltratadas, não fomos? Nascemos diferentes do resto do mundo, nascemos ímpares, e pagamos o preço dessa individualidade nossa vida toda... Não conseguimos encontrar a poesia, a graça nas coisas comuns, a satisfação... Não viemos para revolucionar, queríamos apenas buscar o que infelizmente não existe: a nossa plenitude. Não, esta plenitude não está aqui, meu amor... É um sonho criado para amenizar nossa existência... Sinto muito ter de te dizer isso, mas é preciso... Chega de sonhar, de buscar afeto aonde só existe rejeição, companhia onde só existe solidão, flores onde só existe terra morta... Mas alegre-se, querida! Sorria! Vamos alcançar nosso sonho, vamos buscá-lo bem longe daqui... vamos ser o que realmente somos, fazer o que realmente quisemos o tempo todo: vamos mostrar a todas as pessoas que somos ousadas e corajosas, e mais: que elas não significam nada!
Delicadamente puxou um de meus braços em sua direção e mostrou-me que sua mão carregava um dos cacos do espelho. Enterrou-o com força em meu pulso, esboçando o mais sutil de todos os sorrisos. Fez o mesmo com o outro braço. Observei o vermelho jorrar, escorrer pelo meu corpo nu, tingindo tudo o que havia por perto. Era uma cor bonita, viva, não violenta como da outra vez... era quente, me abraçava com mãos enormes e confortáveis. Não senti dor alguma, ao contrário: pela primeira vez sentia a vida em si, vi o quanto era frágil e patética, desnecessária. O momento me trouxe uma alegria e paz inexplicável... Não havia mais o pequeno círculo de sangue que me prendia: agora o círculo tomava todo o branco, meu mundo se estendia, podia andar por ele livremente. Agora eu desejava o vermelho com toda minha alma, com toda minha força. Havia conseguido! Estava mostrando ao branco todo que eu era capaz de superá-lo! Não fugindo, mas enfrentando-o! E melhor: fazendo-o sucumbir diante da minha própria cor!
Num último relance de realidade percebi que o caco de vidro estava na minha mão.
E depois meus olhos se fecharam.
O rosto retornava o olhar ora com medo, ora com desconfiança, ora com fúria, mas os traços de derrota eram perceptíveis a qualquer momento. Inclinei a cabeça pra um lado, para o outro, sorri, fiz caretas, cara de brava. A criatura do outro lado insistia em imitar cada movimento, o que me irritou profundamente. Seria muito mais fácil descobrir que estava vendo coisas que não existiam do que aceitar aquela imagem como sendo meu próprio reflexo. Lentamente aproximei os dedos do espelho e toquei a superfície por poucos segundos. Um calafrio percorreu cada parte do meu corpo: agora via a mim, o mesmo olhar indiferente de sempre, os mesmos lábios extremamente rubros, as mesmas mechas vermelhas e rebeldes de cabelo que caiam sobre meus olhos pretos, a mesma pele clara como leite, a mesma expressão de individualidade. Sim, meu rosto sempre tivera um ar egoísta e prepotente, porque não maldoso? Claro! Agora mais do que nunca podia perceber toda a malícia, o ódio, a perversão, tudo o que compunha a minha personalidade!
A visão durou por pouco tempo, logo deu lugar à criatura novamente. Por mais que eu não a reconhecesse, o olhar carregado de incerteza e antipatia era meu. Passei as mãos no cabelo, mas dessa vez o outro lado do espelho permaneceu imóvel. Apenas me observava com um certo ar de curiosidade. "O que você vai fazer agora, garota dos olhos negros e feição esnobe?". Não, soava mais como um desafio do que uma questão de saber por saber... O que eu vou fazer agora? Que pergunta mais idiota! Eu vou te expulsar daí!
- Daí aonde? Estamos aí.
- Não importa!
- Então fomos criadas por você, estamos com você. Não temos como ir embora.
O sorriso debochado fez com que eu me sentisse estranha.
E de repente percebi que eu mesma esboçava aquele sorriso.
- Viu? Não existe eu ou você. Somos uma coisa só!
- Não! Eu tô delirando! É o efeito do remédio, é só isso.
- Ora querida, nossos antidepressivos não adiantam de nada, não agora. Chegamos ao limite de tudo. Eles agora só colocam a gente mais nervosa... e descontrolada.
- Não, não, não, é tudo imaginação Audrey, se concentra...
- Imaginação?! Claro que sim, nós sabemos disso! Todos tão certos, estamos loucas de verdade! Não sabemos mais o que é o que, quem é quem, e porque isso tá acontecendo!
- Eu sei! Só preciso me controlar! Você não existe, não é real.
- Você somos nós. Nós somos você. Ou não nos achamos reais? Não estamos aqui, nesse banheiro, nesse exato momento?
- Não....
- Sim! Estamos aqui. Nós estamos aqui, olhe!
Mirei o espelho com medo. Agora estava refletida minha própria imagem ao lado da imagem da criatura. Ela acariciava meus cabelos com desdém. Deu-me um beijo no rosto. A visão me causou náuseas.
- NÃO!!!
Minha mão lançou-se contra o espelho quase que instintivamente. Não senti dor alguma, apenas observei a poesia dos estilhaços caindo sobre meu corpo. Nenhum deles parecia me ferir, ou ao menos se encostar a minha pele. Era como se eu fosse invisível e eles passassem por mim sem barreira alguma em direção ao chão. Em segundos que pareceram horas, o maldito espelho estava todo em pedaços sobre o azulejo branco do banheiro.
Ouvi gargalhadas e tive a horrível sensação de não saber de onde elas vinham.
O momento surreal passou quando comecei a sentir dores. Olhei lentamente cada parte de meu corpo arranhado pelos cacos, até chegar aos meus pés. Em volta deles havia se formado uma pequena poça vermelha, e o branco do chão já não era mais visível. Tentei sair dali, do pequeno círculo que parecia me aprisionar, mas a dor era insuportável. Fiquei arrepiada ao perceber que a intenção era justamente aquela: a dor não me permitiria sair, fugir do sangue, da loucura e da insensatez. Aos poucos o sentimento de derrota foi me tomando por inteiro, os pensamentos invadindo minha mente com tamanha força que já não conseguia raciocinar direito, fui me confundindo, rindo e chorando. O teto parecia se elevar e ficar longe, assim como as paredes, e eu me vi ali, presa na pequena poça de vermelho diante de um branco tão vasto, incapacitada de explorá-lo, de vivê-lo. Até que o ambiente foi ficando tão grande que eu não conseguia enxergá-lo, restava apenas a sensação de solidão e perigo.
E tudo foi indo embora: as cores, as distâncias, as confusões e delírios. Tudo voltou roxo, depois verde, depois colorido ao extremo, até que meu corpo tombou.
- Audrey....Audrey....
Antes de abrir os olhos pude me perceber sentada, e as mãos de alguém segurando meus braços com força.
Esse alguém era eu mesma.
A cena me causou tantas impressões ao mesmo tempo que não consegui reagir. Havia bondade nos olhos daquela outra criatura; uma bondade inocente, caridosa, a qual não havia nos meus. Era muito mais fácil e reconfortante acreditar ser ela mais parecida comigo, a Audrey real, do que a outra criatura, a cruel e impiedosa, a que me havia feito sangrar ao estraçalhar o espelho. Esta era carinhosa, mantinha as sobrancelhas inclinadas como sinal de piedade, não tinha os lábios tão rubros ou a expressão tão agressiva, não usava maquilagem pesada e tinha o cabelo bem preso para que não caísse em seu rosto. Era como uma visão, algo delicado, sutil, era uma bela pintura, uma leitura de despertar lágrimas.
Era eu. Havia de ser eu!
Começou a falar e sua voz soava doce como a voz de uma mãe.
- Audrey querida, fomos tão maltratadas, não fomos? Nascemos diferentes do resto do mundo, nascemos ímpares, e pagamos o preço dessa individualidade nossa vida toda... Não conseguimos encontrar a poesia, a graça nas coisas comuns, a satisfação... Não viemos para revolucionar, queríamos apenas buscar o que infelizmente não existe: a nossa plenitude. Não, esta plenitude não está aqui, meu amor... É um sonho criado para amenizar nossa existência... Sinto muito ter de te dizer isso, mas é preciso... Chega de sonhar, de buscar afeto aonde só existe rejeição, companhia onde só existe solidão, flores onde só existe terra morta... Mas alegre-se, querida! Sorria! Vamos alcançar nosso sonho, vamos buscá-lo bem longe daqui... vamos ser o que realmente somos, fazer o que realmente quisemos o tempo todo: vamos mostrar a todas as pessoas que somos ousadas e corajosas, e mais: que elas não significam nada!
Delicadamente puxou um de meus braços em sua direção e mostrou-me que sua mão carregava um dos cacos do espelho. Enterrou-o com força em meu pulso, esboçando o mais sutil de todos os sorrisos. Fez o mesmo com o outro braço. Observei o vermelho jorrar, escorrer pelo meu corpo nu, tingindo tudo o que havia por perto. Era uma cor bonita, viva, não violenta como da outra vez... era quente, me abraçava com mãos enormes e confortáveis. Não senti dor alguma, ao contrário: pela primeira vez sentia a vida em si, vi o quanto era frágil e patética, desnecessária. O momento me trouxe uma alegria e paz inexplicável... Não havia mais o pequeno círculo de sangue que me prendia: agora o círculo tomava todo o branco, meu mundo se estendia, podia andar por ele livremente. Agora eu desejava o vermelho com toda minha alma, com toda minha força. Havia conseguido! Estava mostrando ao branco todo que eu era capaz de superá-lo! Não fugindo, mas enfrentando-o! E melhor: fazendo-o sucumbir diante da minha própria cor!
Num último relance de realidade percebi que o caco de vidro estava na minha mão.
E depois meus olhos se fecharam.


1 Comments:
Caralhus!
Postar um comentário
<< Home