quarta-feira, fevereiro 28, 2007

A menina.

A menina passa o dia todo fugindo de seus próprios pensamentos, e às vezes pensa que seria realmente melhor se tivesse uma cabeça de papelão como num certo conto que ouvira.
E até que consegue, sabe? Mantém-se ocupada com o trabalho e distraída com as baboseiras da televisão.
Mas não é boba e se conhece muito bem. Tem sempre a consciência de que lá no fundo muita coisa ainda martela, judia, embora que disfarçadamente.
No caminho de volta pra casa, sozinha numa noite quente, sente por um milésimo de segundo uma pontada, um aperto no peito. No milésimo de segundo seguinte todos aqueles pensamentos indesejados vêm a tona. E finalmente no milésimo de segundo seguinte ela os afasta com uma velocidade de causar inveja.
Depois do banho gelado e de um enorme prato de arroz, feijão e peixe, se sente bem melhor. Quase como se nada tivesse acontecido.
Quando vai à cozinha tomar um copo d'àgua, porém, os malditos milésimos de segundo e pontadas voltam. De surpresa, com a clara intensão de fazer doer mais.
Desabafa e chora, como de costume. Sente-se pequena e perdida, as duas definições que mais odeia no mundo. Depois respira fundo, seja pela promessa de procurar realmente por uma cabeça de papelão, ou por estar ciente de aguardar por mais milésimos de segundo.
Não quer ser pessimista como sempre, mas também morre de medo de estar se enganando ao ser positiva.

Finalmente se senta na frente do computador.
Sente-se besta por estar achando que escreve muito melhor quando está realmente triste, e o quanto isso é ridículo.
Sente-se criança por imaginar que seus sonhos estão indo por água abaixo, pois o que gostaria mesmo pra sempre era escrever.
E o quanto isso é ridículo.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

mas, como era de se esperar, essa menina dá a volta por cima e mais rapido do que imaginava recupera sua calma e sente novamente o gostinho de ter feito a coisa certa.
Essa menina tem um grande futuro.

9:37 AM  

Postar um comentário

<< Home